sabem - me a roupa
viram - me nu
viram - me inteiro
no corpo imóvel
mas sò me sabem
mas sò me vêem
mas sò me enterram
inexistente
alheio e estranho
entrando em mim
sabem - me a roupa
viram - me nu
viram - me inteiro
no corpo imóvel
mas sò me sabem
mas sò me vêem
mas sò me enterram
inexistente
alheio e estranho
entrando em mim
como se tivessem boca
palavras de amor de esperança
de imenso amor de esperança
louca palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto
palavras que se recusam aos muros
do teu desgosto de repente coloridas
entre palavras sem cor
seu ultimo vitèm e o passado
e o futuro serão guerra de não
ser sobre a terra de ninguém
árvore gémea a quem em dor
se enterra o céu descerá em busca
de outro além e unidos ambos corpos
e céu a alma errará distante mas morta
tambèm será possível mesmo o fim
de tudo tudo tão rápido ?
o pássaro ao vento ò ave sombra
cantai num templo mudo atroz saudade
da alma nunca vista passo perdido em negro
paisagem morta que terra conquista !
as cores que a recebem
sò o lago iluminado
pelo luar se abre ao céu
com a sua face transparente
do outro lado da baìa a neve
pousou nas colinas è um costume
celebrado o de os habitantes olharem
essas escarpas desertas aguardando
o inverno
em breve com o vento frio
vindo do norte será neve
a cair na avenida mais próxima
da baía sente - se já esse vento
como uma doce esperança a pairar
sobre o telhado da cidade
sobre ele e sobre nòs os relâmpagos
não bastam para que o mundo o mostre
chamas - lhe revelação ao gesto que abre
os braços o primeiro olhar que se ama
lentamente nele cabe o silêncio anterior
as coisas que estremecem sò de terem
um nome uma sombra um modo de adormecer
a partir dai do primeiro som tudo se recomeça
enquanto o dia não curva repousando
agora ela perfuma a vida
haverá outra maneira de descrever
todas as coisas que nascem assim
mas esta basta è a mais simples
a mais amada das coisas cede o seu lugar
por esse minuto esse som o gesto que abre
os braços è um destino complicado ou ès poeta
ou preferes o trabalho do romancista ou te entregas
ao dialogo à discrição a narração pausada a medida
como um instruo a mente rigoroso ou te deixas tocar
pelo silêncio
por ter sido à primeira das coisas comuns
aquele minuto nunca se repete
vagamente o lembrarás mais tarde
porque è frequente falar - te do mistério
da vida
para descrever essa geografia
e esse rosto todo vivo se me
afasto vejo agora como estava
estava incompleto de mim mesmo
olho - a outra vez para contemplar
o que há - de vir faltar - me - à o tempo
para viver todos os seus dias verdadeiramente
hei - de estar velho e escandalizado por ela
existir para além de mim guardo os seus olhos
fulgurantes o seu choro inocente o seu rosto
vago de tranquilidade ela falta - me assim
desta maneira
às flores o da mãe
vejo ali um sinal
de orgulho
brevíssima paz antes da vida
no là devolver porque tem
de ser
que há - de vir assim a vejo
em sonhos trémula a cabeça
pousando sobre a mão inclinada
sobre a tarde desajeitada e tão agora
nascida repousa de novo deitada
junto da mãe não sei como sabe
o que vem a seguir mas há - de
ser assim há flores à volta no pequeno
quarto onde adormece
surpreendem - me quando
reparo na chuva de Janeiro
o seu brilho não esquece
ri de mim não pode ser outra
coisa enquanto a chuva miudinha
e fria a chuva de Janeiro seguro
ao colo a minha filha ela olha - me
vagamente
a luz esplêndida arrebatada
sente - se essa emoção tão pequena o tempo passa
e esquece não o sente adormecida e encostada ao peito
um sopro seria agora um ventania inútil enquanto digo
versos em silêncio grato pelo milagre de o ver perfeito
è outra coisa comum esta perfeição os olhos as mãos
a boca um leve perfume que hà - de ficar na camisinha
de flanela esvoaçando de Janeiro a Janeiro afastando
o medo de inverno esse mal que vem entre as roseiras
frias e mais nuas do mês
para compor o herbanário das estações
o malmequer è simples e parece - se
com ela gostará de violetas ?
as rosas serão banais antes os lìrios
do campo que vêm nos livros o herbanário
de todos os anos começou - o por estes dias
mas tarde o reconhecerá ai o mundo tão frágil
e imperfeito as meninas hão - de gostar de flores
de cadernos arrumados especialmente de onde vou
reunir as folhas das searas como se fosse
uma botânico tão frágil ainda não compreendo
como vai escutando estas coisas mas vejo
que as entende no meio das sombras
vaguei já nos campos corre nas dunas
mais rente ao mar de onde lançará um
papagaio de papel
se isto è amor
não o quero perder
não quero perder esse amor
por ti .... amo - te ...
à sua volta o seu corpo è esguio
e pequeno como poderei protege - lo ?
sentirá que esta è a sua casa ?
quando tomará como a sua
e se perderá no que tiver de se perder ?
certos isso sim irás aprende - los
de Janeiro para Janeiro em passeios
pela serra aventuras entre pinhais
rente as cancelas das hortas sob os pinhais
em alguns livros se não faltarem como agora
as palavras
preparas a casa como podes acender
a lareira a manhã transporta - a consigo
numa e outra te contemplam a tua vida
è já diferente mas sò dois ou três dias
depois começas a ter saudades a todos
os minutos gostará de Bach ?
há um quarteto de Mozart que prezas
especialmente mas nenhuma perfeição
è essencial diante do seu corpo
tão precário sobreviràs às vacinas ao trabalhos
escolares a poesia devia falar disso precisamente
e mesmo assim seria pouco para descrever
o que acontece là dentro no nosso coração
è a praia onde descansa a alma ao vento
o pò que se levanta no arrasto dos trilhos
a terra que me espera tinha tudo para te dar
o meu amor por ti uma alma pérola de um
coração sò o mar è o meu refúgio nele me
largo os dias que me restam tu ès a única
coisa que deixei um dia entrar no meu coração
ao inferno a água evapora - se
o mar cede às tentativas do diabo
sempre que a folha não responde
há que respirar as palavras antes
de nos afastarmos do papel calmamente
por entre os dedos dos pès e as asas
ou o mar cada palavra
è feita de espuma ao colo
ao cimo da água as amostras
da felicidade são largadas
ao vento das ondas
sorris
eu te amo
digo - te que te quero
sorris
e eu quero - te
dizes em sonhos
em sonhos que já tive
a morte a imagem
que detenho numa placa
a jaz um nome a minha
memória onde me perco
sempre que me deixo acordar
descansar no meio da poeira
o mar o mar que hoje o mar
entre as algas anémonas e corais
voando atè onde o sol não chega
que hoje o mar oceano de ondas
quebradiças onde a terra não toca
o céu se observa
em que voas nos braços
nos envolves
faz - me falta um verso
onde o mar não termine
deus sobre as rochas
tão leve esse olhar a face
o esgar de um sorriso
a mão que toca a pele tão subtil
o Dezembro gelado e a neve
vermelha porque branca
não termine deus sobre as rochas
do poema dizer cada silaba
desencantada na passagem
do espírito à palavra a o poema
è atirado sem leões como carne
a palavra e da areia esvoaça um verso
que acaricias que amamentas com sal
da língua como carne a palavra
um poema de amor
o amor não escolhe
olhos nem presença
escolhe os poemas
as palavras onde
tu e eu
eu e tu
tantas vezes nos deixamos
um poema
a vida nasce dos búzios
perdem - se nos corais
quando deixam a carapaça
e seguem pela estrada de espuma
eram mais tarde no crepúsculo
do entardecer neste fusco da madrugada
mas era mais tarde não agora
antes um pequeno corpo
rochoso beijou a pele do pátio
e pequeno estrondo tal suspiro
saio da sua boca expirou a brisa
breve e quente evocá sobre os sulcos
da terra leva consigo uma espera
hoje essa terra ès tu um amor disponível
è a espera que espera algures por ti
e pouso os olhos na areia nunca te conheci
repara
as falésias desmoronaram - se
em segredo as cigarras já se calaram
para sempre ouço o apelo da voz junto
ao meu corpo o sol abandona - me
por detrás do azulejo abrem - se os lábios
as bocas fecham - se os olhos a entrada
da luz o pêlo eriçado alimenta o desejo da fuga
a esbater - se no corpo quando
as horas se arrastam em direcção
à noite com a magnólia pintada
de negro na cidade iluminada
o desejo na Santíssima Ordem
e as mulheres debruçam se sobre
os seios a janela fechada
os corpos tocam - se no interior
das vielas os sexos pendem - se
no odor do prazer as línguas
debatem - se no desejo de se amar
nas ilhas as aves tambèm regurgitam
a alimentação dos filhos
as dunas que se levantam
com o vento são os sonhos
do amor que dormita em sossego
nas praias a terra ès tu o mar sou em
e agora que começaste a fazer corpo
com a terra a única evidência è crescer
para o sol no crepúsculo do entardecer ...
que me colheu para que sejamos
com o céu e a terra todo o mundo
dois amantes o mundo cada um no
seu reino beijam - se nas praias
quando as ondas batem na areia
o mar è um navio feliz
entrar no meu coração
negaste o solo da felicidade
obediente a quem amas a ela
te juntas no pò ?
dela te recordaras no deambular
das àguas
em direcção contrária
voando ... voando ... voando
tinha tudo para te dar o meu amor
por ti uma alma pérola de um coração
sò o mar è o meu refúgio nele me largo
os dias que me restam
na imensidão do vento no luzir
de uma estrela o sol que aquece
e ilumina sem queimar o amor
exala o nosso ser aquece a fonte
energética sem igual numa sò
harmonia caminhamos
caminhando rumo ao futuro
conscientes atentos ávidos
e humildes
è um punhado infantil de areia
ressequida um som de água
ou de bronze e uma sombra
que passa
a flor da musica e se fará bronze
antigo em cadência que rezava
marés em túnicas um dia se fará
secos polinómios e vinho alegre
e haverá geometria descritiva
o que suspeita sem ferir o que abre
as feridas descendo das vinhas para
o rio o teu rosto aparece muitas vezes
nos espelhos como uma tarde de Outono
mente sobre as coisas que matam
esquece onde eu esqueço
adia esse lugar
nem voz
reinventa a história do mundo
por um verso apenas reabre o tempo
abre as janelas os vidros deixa ver
a manhã a que nos desperta
há quanto tempo a esqueceste
o vento dedica - se ao ritmo das estações
vem com o ruído dos comboios
com a chuva das árvores
esconde - se nos tanques
onde a morte se abriga
uma mulher a parir o velho
que existe na criança que assiste
à morte que perde importância
face a vida inteira sã o som do sono
como um grande bordão de fogo
sujo o sol posto demora - se nas nuvens
que ficam vem um silvo vago de longe
na tarde muito calma deve ser de um comboio
longínquo
sò as deixa verter no tempo da chuva
seca - lhe no corpo na época das uvas
esconde - os nos olhos ao fim das guerras
o homem inteiro sò respira as águas que
não são de ninguém nem são suas
inunda com fè o coração das crianças
vê vir ao de cimo o azeite as raparigas
um manto de trevas carregadas
de insegurança e mistérios
que há - de ter sempre no céu
estrelas
não è importante eu sei não irà salvar
o mundo mas que hoje è capaz de salvar
o mundo ou a menos mudar o sentido
de vida de alguém ?
do submundo do inconsciente
que liberta a alma melancólica
do ser de uma triste sina de solidão
procura uma semente que lhe devolva
a quimera e o sonho que tenho ...
a palavras as palavras
vão de vaga em vaga
neste crepúsculo as palavras
ainda fazem algum sentido ?
seremos nòs tu e eu as palavras ?
iremos nòs juntos de mãos dadas ?
a principio o meu olhar
tornou - se o peso aos seios
e concordei depois seguiram
os dedos macerados a
compô - los mais tarde perdi os lábios
que me identificaram o grão dos teus mistérios
depois a boca a mentir - te jamais serei o teu velho
ao primeiro olhar tive o pressentimento que a ter
que vir o amor chegaria confuso e ignorante
a principio o nosso olhar aguentou sobre o espelho
e pronúncia de quem seria velho de quem
vai agora o espelho gasto e o mistério tambèm
preso no escuro atravesso um charco de lama
onde a podridão derrama a cólera da raiva
num mundo egoísta e consciente de tudo
vive uma maldade transparente que se move como
uma serpente
pois o silêncio trémulo
as mãos em sobressalto
preso no escuro ensejo
pelo dia de me libertar
de um mundo que me
enjoa em batalhas
com convicção nas palavras
que se repetem e caem no
esquecimento tornam em sonhos
e quimeras
o egoísmo è uma noz
preconceitos no olhar
que são lanças a vulgarizar
o silêncio dos lugares
balanço provisório
foram as minhas escolhas
causas perdidas a alma andava
vazia e a alegria por singrar
foram minha causa esquecida
e a alma continuava vazia
e o louvor para chegar vive
entre margens estreitas
sai do abismo
liberta a tua sombra
que esta presa no absurdo
e voa voa sem parar
na cólera do tempo
que se vai libertar ...
com o verbo amar
em dias repentinos a voar
sò tu ès eterna em mim
neste amor que tanto desejo !
falar que valera a pena se grâ turba
ou a branda avena não dissessem
mais e mais ? mas dizem sem eu
querer falar sem tê - lo eu na ideia
de coisas que as sei soube ouvir dizer
a tudo o que me rodeia eu que tanta dor
assisti quando nem mesmo existia tanto
alto sonho nutri que posto a cantar me
ouvi a imensa heresia alegria
que não aparece pelo menos
a mostrar - nos que è o mistério
que sabe o rio e que sabe a árvore
e eu que não sou mais que eles
que sei disso ? sempre que olho
para as coisas e penso no que os homens
pensam delas rio a janela a observar o mundo
e ao admirar as estrelas do céu qual não è o meu
espanto quando oiço a voz da minha alma a voz
do meu silêncio que ia suspirando
imaculada de encontro passa
uma borboleta diante de mim
e pela primeira vez no universo
eu reparo que a borboleta não
tem cor nem movimento no movimento
da borboleta o movimento è que se move
o perfume è que tem perfume no perfume
da flor a borboleta è apenas borboleta
e a flor è apenas flor
sabem - me os pés sabem - me a roupa viram - me nu viram - me inteiro no corpo imóvel mas sò me sabem mas sò me vêem mas sò me enterram inex...