segunda-feira, 30 de maio de 2022

nona sinfonia

é por dentro de um homem que se ouve o tom

mais alto que tiver a vida a glória de cantor

que tudo move a força de viver enraivecida

num palácio de sons erguem - se as trevas

que seguram o tecto da alegria


pedras que são ao mesmo tempo as aves mais livres

que voaram na poesia para o alto se voltam as


volutas   hieráticas sagradas impulutas de sons

que surgem rangem e se somem


mas de baixo è que irrompem absolutas as humanas

palavras resolutas por deus não basta è mais

preciso o Homem
 

O poema original

original è o poeta

que se origina a si mesmo

que numa silaba è seta  noutra pasmo

ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse o abismo

e faz um filho às palavras

na cama do romantismo

original è o poeta

capaz de escrever em sismo


original è o poeta

de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não è de lugar algum

o que gera a própria arte

na força de ser um por todos

a quem a sorte faz devorar em jejum

original è  o poeta que de todos

for sò um

original è o poeta

expulso do paraíso por saber o que è o choro e o riso

aquele que desce à rua bebe copos quebra nozes e

ferra em que tem juízo versos brancos e ferozes

original è o poeta que è  gato de sete vozes

original è o poeta

que chegaao despor de escrever todos os dias como

se fizesse amor esse que despe a poesia  como se fosse

mulher e nela emprenha a alegria de ser um homem qualquer 
 

caminharemos

caminharemos de olhos deslumbrados

e braços estendidos e nos lábios incertos

levaremos o gosto a sol e a sangue dos

sentidos onde estivermos há - de estar

o vento cortado dos perfumes e gemidos

onde vivemos há - de ser o templo dos

nossos jovens dentes devorando os frutos

proibidos  no ritual do verão descobriremos

o segredo dos deuses interditos e marcados

na testa exaltaremos estátuas de heróis castrados


e malditos


ò  deus  do sangue !

deus de misercòrdia !

ò deus  de virgens loucas dos amantes com cio

impõe - nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas

unge os nossos cabelos

com o teu desvario !

desce - nos sobre o corpo

como um falus irado

fatiga - nos os membros como um làtego doido

uma chuva de fogo torna - nos sagrados imola - nos

os sexos a um arcanjo loiro

degola - nos castiga - nos arranca - nos os olhos

violenta - nos as bocas atapeta a estrada que seguimos

e carrega de aromas a brisa que nos toca nus e ensanguentados

dançaremos a glória dos nossos esponsais eternos com o Estio
 

soneto de mal amar

invento - te recordo - te destroço a tua imagem

mal e bem amada

sou apenas a forja

em que me forço

a fazer das palavras

tudo ou nada

a palavra desejo incendiado

lambeando a trave mestra

do teu corpo

a palavra ciúme atormentada


a provar - me que ainda estou vivo


e as coisas que eu não disse ? que não digo


meu terraço  de ausência

meu castigo meu pântano

de rosas afogadas

por ti me reconheço

e contradigo joio e trigo

apenas por ternura

levedadas
 

eu não sei

eu não sei meu amor se o que digo

è ternura se è riso se è pranto è

por ti que adormeço e acordado recordo

 no canto essa tarde em que tarde surgiste

dum triste e profundo recanto essa noite

em que cedo nascestes despida de magoa

e de espanto meu amor nunca è tarde nem

cedo para quem se quer tanto

 

foi a noite mais bela

foi a noite mais bela de todas as noites

que me adormeceram dos nocturnos

silêncios que à noite de aromas e beijos

se encheram foi a noite em que os nossos

dois corpos cansados não adormeceram

e da estrada mais linda da noite uma festa

de fogo  fizeram

foram noites e noites que numa sò noite

nos aconteceram era o dia da noite

de todas as noites  que nos procederam


era a noite mais clara daqueles que a noite se deram

e entre os braços da noite de tantas se amaram


vivendo morrem
 

meu amor meu amor

minha estrela da tarde que o luar

te amanheça e o meu corpo te guarde

meu amor meu amor

eu não tenho a certeza se tu ès a alegria

ou se ès a tristeza meu amor meu amor

eu não tenho a certeza
 

estrela da tarde

era a tarde mais longa de todas as tardes

que nos acontecia eu esperava por ti

tu  não vinhas tardavas e eu entardecia

era tarde tão tarde que a boca 

tardando - lhe o beijo morria


quando a boca da noite surgiste na tarde

qual rosa tardia quando nòs nos olhamos


tardamos no beijo que a boca pedia

e na tarde ficamos unidos ardendo


na luz que morria em nòs dois

nessa tarde que tanto tardaste


o sol amanhecia era tarde demais

para haver outra noite


para haver outro dia
 

a paciência

a paciência faz contra as ofensas

o mesmo que as roupas fazem

contra o frio pois se vestires

mais roupas conforme o inverno

aumenta tal frio não  te poderá

afectar do modo semelhante

a paciência deve crescer em relação

as grandes ofensas tais injúrias não

poderão afectar a tua mente
 

tu bebes - me

tu bebes - me e eu me converto

na tua sede

meus lábios mordem

meus dentes beijam


 

há palavras

há palavras que nos beijam como se tivessem boca

palavras de amor e esperança louca palavras nuas

que beijam quando a noite perde o rosto palavras

que se recusam aos muros do teu desgosto de repente

coloridas entre palavras sem cor esperadas

 inesperadas como a poesia ou o amor


o nome de quem se ama letra a letra revelada

no mármore distraído no papel abandonado


palavras que nos transportam aonde a noite  è mais forte


no silêncio dos amantes abraçados contra a morte
 

recusaste a ser feliz

recusaste a ser feliz e não assinas

a tua própria vida tens ainda uma

insana esperança de não passares 

de um sonho os outros  que sonhem

enquanto dormes
 

a aurora

a aurora encheu de rosas a taça do céu

há limpidez do ar esgota - se o canto

do último rouxinol o aroma do vinho
 

mesmo sedento

mesmo sedento contigo nos braços

atravesso as paredes cerradas do ódio

o muro ácido das trevas e fundos em

teus flancos cravo os rubros esporos

da madrugada
 

traz da montanha

traz  da montanha um pássaro de resina

uma lua vermelha

oh ... amados cavalos com flor

de giesta
 

o som do mar

o som do mar no meu ouvido

o meu ópio e os teus gemidos

na verga do teu corpo a clemência

do meu pecado
 

flauta

que flauta è essa cuja a música me faz estremecer

de alegria ?

a chama arde sem lâmpada

o lotus floresce sem raìzes

as flores abrem - se sem os cabelos

o pássaro da lua è o seu devoto

de todo o coração o pássaro  da chuva

deseja o aguaceiro


mas em que amor concentra o amante


toda a sua vida

 

há palavras  que nos beijam como

se tivessem boca

palavras de amor e esperança

palavras de imenso amor

de esperança louca


palavras nuas que beijas quando a noite perde o rosto

palavras que recusam aos muros do teu desgosto


de repente coloridas  entre palavras sem cor esperadas 

inesperadas como a poesia ou o amor


o nome de quem se ama letra a letra revelada no mar-moro


distraído no papel abandonado


palavras que nos transportam aonde a noite è mais forte


ao silêncio dos amantes abraçados contra a morte
 

vida

da vida não fales  nela quando o ritmo

pressentes não fales nela que a mente

se os teus olhos se demoram em coisas

que nada são sò os pensamentos se

em floram em torno delas e não em

torno de não saber da vida não

fales nela


quanto saibas  de viver nesse olhar


se te congela e sò a dança è que dança


quando o ritmo pressentes se firme


o ritmo avança


è dócil a vida e mansa


não fales nela mentes ... 
 

nenhuma morte

nenhuma morte apagará os beijos e por dentro

das casas onde nos amamos ou pela ruas

 clandestinas da grande cidade livre

estarão sempre vivos os sinais de um grande

amor


esses densos sinais de amor e da morte

com que se vive a vida ai estarão


a nossas mãos e nenhuma do será possível


onde nos beijamos


eternamente apaixonados


eternamente livres
 

esperança

tens ainda a insana esperança

de não existires

de não passares de um sonho

que os outros sonhem enquanto

tu dormes
 

sempre senti o amor

sempre senti o amor amando - te

ávido

sentindo a vida  do que è no teu

olhar

o coração a bater fortemente nesta

imensa solidão sem ti 


 

pudesse ser teu

minha pele veste - te e ficas ainda

mais despida

pudesse ser teu em tua saudade

ser a minha própria espera

mas eu deito - me em teu leito

quando apenas


queria dormir em ti e sonho - te  quando ansiava

ser um sonho teu


e levito voo de semente para em mim mesmo

te plantar menos que flor simples pétala


sem chão onde tombar


teus olhos inundam os meus e a minha vida

já sem leito vai galgando margens atè tudo


ser mar esse mar que sò há depois do mar
 

construímos um planeta

construímos um planeta perto do sol

habitamos  sementes sonoras

a sobrevoar - nos 

o mais radiosos è não haver


sementes no chão a germinar

no chão  apenas os nossos pès


quando a música que nòs dois ouvimos

nos faz dançar
 

Lua

a lua

sou um pequeno mundo

movo - me

rolo e danço por este céu

profundo por sorte Deus

 me deu mover - me sem


descanso em terra de outro mundo

que ainda è maior que eu


 

nuvens

os bancos acolhiam tornaram - se

nuvens 

leves flutuantes macias eram as tuas

mãos que me tocavam
 

pergunta - me

pergunta - me

se ainda ès o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinze

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue


pergunta -  me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fùria

e o tropel de mil cavalos

pergunta - me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes  que me detive

junto das pontes enevoadas

se eras tu

quem eu via na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunia pedaços do meu poema

construindo  a folha rasgada

na minha mão descrente

qualquer coisa

pergunta - me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer 
 

a vida

a vida passa como se temêssemos

deixemos a ciência que não põe 

mais flor que a flora pelos campos

nem dà de Apolo ao carro outro curso

que Apolo contemplação estéril

e longínqua das coisas próximas

deixemos que ela olhe atè nos ver

nada com seus cansados olhos vê

como Ceres è a mesma  sempre


e como os louros campos intrumesce e os cala  

para as avenas do agrado de Pã

 

o peso da sombra

sei de uma pedra onde me sentar

a sombra de Junho e vou falar - te

de girassòis  essa flor quase de areia

que ombro a ombro com o sol faz

peso da sua solidão o ardor dos grandes 

dias do verão
 

a chuva

trás  os teus cabelos verdes a chuva

e ao vento vem meu amor através

da neblina parda que sobe o rio
 

são tão belas as flores

são tão belas as flores mas decepadas

lançadas na sepultura do deserto

no caos da agonia feita êxtase temor

fúria e adoração

são despojos soterrados
 

lágrima silenciosa

em cada rosto uma lágrima silenciosa

em cada sorriso um choro no coração

palpitante de amor
 

vento ardente

não te perguntei se alguma vez esperaste

as minhas palavras o meu navio

este verso ardente
 

palavra

quando a palavra não surge cai o céu

ao inferno a água evapora -se o mar

cede as tentativas do diabo sempre

que a folha não responde
 

falo - te

falo - te de poemas de histórias inventadas

à sombra do calor do corpo oiço a imensidão

do rio galgando as areias fundas da foz
 

teus olhos

teus olhos são a pàtria do relâmpago

e da lágrima silêncio 

que fala tempestades sem vento

sem mar sem ondas pássaros presos

douradas feras adormecidas topázios

ímpios como a verdade Outono numa

clareira de bosque onde a luz canta


no ombro duma árvore e são  pássaros todas as folhas 

 praia que a manhã encontra costela - das de olhos


cesta de frutos de fogo mentira que alimenta espelhos

deste mundo portas do além pulsação tranquila do mar


ao meio - dia universo que estremece paisagem solitária



 

silêncio

assim como do fundo da música brota uma nota

que enquanto vibra cresce e de adelgaça atè que

noutra música emudece brota do fundo do silêncio

outro silêncio agudo torre espada e sobe e cresce 

e nos suspende enquanto sobe com recordações

esperanças as pequenas mentiras e queremos  

gritar o grito se desvanece desembocados no

silêncio onde os silêncios emudecem
 

certeza

se è real a luz branca desta lâmpada real

as mãos que escrevem são reais os olhos

que olham o escrito ? duma palavra

a outra o que digo  desvanece - se 

sei que estou vivo entre dois parêntese
 

chegada

não seja noite nem dia

a hora

em que vieres somente

haja

silêncio na cidade morta

e suave

me toques e beijes na fronte

para

que sò eu saiba que ès chegada
 

faz - me falta

faz - me falta um verso onde o mar

não termine

Deus sobre as rochas
 

há em ti coisas que eu não espero

um lince silencioso

a luz da seiva

uma lâmina um peixe
 

palavras

há que respirar as palavras

antes de nos afastarmos

do papel
 

a natureza

natureza partes sem um todo

isto è talvez o tal mistério que

falam

foi isto o que sem pensar

nem parar

achei que deveria ser a verdade

que todos andam achar e que não

acham

e  è sò eu porque não fui achar

achei
 

destino do poeta

destino do poeta palavra ? sim de ar

e no ar perdidas

deixa - me perder entre palavras

deixa ser o ar nuns lábios um sopro

vagabundo sem contornos que o ar

desvanece  tambèm a luz sem si mesma

se perde

 

amor

sendo de maior amor nem mais estranho

existe que o meu não sossega e não dà

descanso a coisa amada

e quando a sente alegre  fica descontente

sorri


sò fica em paz se lhe resiste o amado coração

e que se agrada mais da vida eterna aventura


que persiste de uma vida mal aventurada
 

perdoa - me folha seca

perdoa -me folha seca !

meus olhos sem força

estão 

a velar e a rogar por aqueles

que jamais se levantarão ...

 

luz

visto a luz de hoje

o que sou

por te amar sem ser amado

por ti
 

o amor

o amor não è uma areia presa na engrenagem

da alma

è a praia onde descansa
 

noite

se na noite o céu não viesse

adormeceria

sobre o brilho do pensamento

e as estrelas sorriam

 alforrecas que migram para o sul

 

domingo, 29 de maio de 2022

um rumor

um rumor de ave sobe ao ar

canta com a pedra na sua mão

obscura aquecida com seu calor

de mulher seu ardor escuto como

se fosse a minúscula luz mortal

das entranhas lhe subisse a garganta

a sua mortalidade humana canta com 

a pedra
 

sabem - me o rosto

sabem - me os pés sabem - me a roupa viram - me nu viram - me inteiro no corpo imóvel mas sò me sabem mas sò me vêem mas sò me enterram inex...