terça-feira, 30 de agosto de 2022

no santo nome do teu martírio

que nunca cessa

meu Deus

eu quero depressa

a minha amada mulher

que passa !

que fica e passa

que pacifica que è tanto

pura como devassa que bóia

leve como a cortiça e tem raìzes

como a fumaça
 

Meu Deus

eu quero a mulher que passa !

eu quero agora sem mais demora

a minha amada mulher que passa !
 

Porque não voltas

mulher que passa ?

porque não enches a minha vida ?

porque não voltas mulher querida

sempre perdida nunca encontrada ?

porque não voltas a minha vida

para o que sofro não ser desgraça ?
 

a mulher que passa

meu Deus !

eu quero a mulher que passa

seu dorso frio è um campo de lìrios

tem sete cores nos seus cabelos sete

esperanças na boca fresca !

oh como ès linda mulher que passas

que me sacias e suplicias dentro das noites

dentro dos dias !

teus sentimentos são poesia

teus sofrimentos melancolia


teus leves pulsos são a boa relva

fresca e macia


teus belos braços são cisnes mansos

longe das ventanias


porque me faltas se te procuro ?

porque me odeias quando te juro


 que te perdia se me encontravas

e me encontrava se te perdia ?


 

Ternura

eu peço perdão por te amar

de repente embora o meu

amor seja um velha canção

nos teus ouvidos das horas

que passei a sombra dos teus

gestos bebendo em tua boca

o perfume dos sorrisos das

noites que vivi acalentado

pela graça indizível dos teus

passos eternamente fugindo


trago a doçura dos que aceitam a melancolia

e posso dizer - te que o grande afecto que deixo


não trai o exagero das lágrimas nem a fascinação

das promessas nem as misteriosas palavras do véu


da alma ...  è um sossego uma unção transbordamento

de caricias e sò te pede que pouses muito quieta e deixes


que as mãos càlidas da noite encontrem sem fatalidade

o olhar da aurora


 

Soneto da fidelidade

de tudo a meu amor serei atento

antes e com tal zelo e sempre

e tanto que mesmo em face

de maior encanto dele se encante

mais o meu pensamento

quero vivê - lo em cada momento

e em seu louvor hei - de espalhar

o meu canto e rir o meu riso e derramar

o meu pranto ao seu pesar ou ao seu 

contentamento e assim quando mais tarde


me procure quem sabe a morte

a angùstia de quem vive


quem sabe a solidão fim de quem ama

eu possa dizer - me de amor ( que tive )


que não seja mortal posto que è chama

mas que seja infinito enquanto dure

 

Poema de natal

parta isso fomos feitos

para lembrar e ser lembrados

para chorar e fazer chorar

para enterrar os nossos mortos

por isso temos braços longos

para os adeuses

mãos para colher o que foi dado

dedos para cavar a terra



assim será a nossa vida uma tarde

sempre a esquecer


uma estrela a apagar - se na treva

um caminho entre dois túmulos


por isso precisamos velar

falar baixo

pisar leve

ver a noite dormir em silêncio


não há muito a dizer 

uma canção sobre um verso


talvez de amor

uma prece que se vai


mas que essa hora esqueça e por ela

os nossos corações se deixam graves e simples


por isso fomos feitos para esperança no milagre

para a participação da poesia


para ver a face da morte de repente nunca mais esperamos ...

hoje a noite è jovem da morte apenas nascemos imensamente
 

Soneto de amor total

amo - te tanto meu amor

não cante o humano coração

com mais verdade

amo - te como amigo

e amo - te como amante

numa sempre diversa realidade

amo - te afim de um calmo amor

presente e amo - te além presente

na saudade amo - te enfim como grande

liberdade dentro da eternidade e a cada instante


amo - te como um bicho simplesmente

de um amor sem mistério e sem virtude


como um desejo maciço e permanente

e de amar - te assim muito e amiúde


è que em teu corpo de repente hei - de morrer 

de amar mais do que pude
 

Poètica

com as lágrimas do tempo e a cal

do meu dia eu fiz o cimento da minha

poesia e na perspectiva da vida  futura

ergui em carne viva sua arquitectura

não sei bem se è casa se è torre ou se

è templo ( um templo sem Deus )

mas grande e clara pertence ao seu tempo

... entrai irmãos meus !
 

Soneto de devoção

essa mulher se arremessa

fria e lúbrica aos meus braços

e nos seios me arrebata e me

beija e balbucia versos vetos

de amor e nomes feios

essa mulher flor de melancolia

que se ri dos meus pálidos receios

a única entre todas a quem dei os carinhos

que nunca a outra daria

essa mulher que cada amor proclama


a miséria e a grandeza de quem ama

e guarda a marca dos dentes nela


essa mulher è um mundo !

uma cadela talvez mas na moldura duma cama


nunca mulher nenhuma foi tão bela !
 

Soneto de contrição

eu te amo tanto

que o meu peito dói

como em doença

e quanto mais me seja

a dor intensa mais cresce

na minha alma o teu encanto

como a criança que vagueia

o canto ante o mistério da ampliação

suspensa o meu coração è vago de acalento



berçando versos de saudade imensa

não è maior o coração que a alma


nem melhor a presença que a saudade

sò o amor è divino e sentir acalma


tão feita de humildade que tão mais te soubesse

pertencido menos seria eterno em tua vida


 

Namorados do Mirante

eles eram mais antigos que o silêncio

a perscrutar - se  os sonhos tal como

duas súbitas estátuas em que apenas

o olhar restasse humano

qualquer toque por certo desfaria

sues corpos em pura cinza

 a remontavam as origens

a realidade neles se fez substância


imagem dela a face era fria a que o desejo

hictus houvesse adormecido


dele sò restava apenas o eterno grito da espécie

tudo o mais tinha morrido


caiem lentamente na voragem como duas estrelas

que gravitam juntas para depois num grande abraço


rolarem pelo espaço e se perderem transformadas

na imagem incandescente que milénios mais tarde

explode em amor e da matéria reproduz os tempos nas galáxias

da vida do infinito


 
 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Soneto de separação

de repente do riso fez - se o pranto

silencioso e branco como a bruma

e das bocas unidas fez - se espuma

e das mãos espalmadas fez - se o espanto

de repente da calma fez - se o vento que

dos olhos desfez a última chama e a paixão

fez - se pressentimento e do momento imóvel

fez - se o drama de repete não mais de repente

fez - se de triste o que se fez amante e de sozinho 

o que se fez de  contente fez - se de amigo próximo


o distante fez - se da vida uma aventura errante

de repente não mais do que de repente


 

a noite

è eu procurar a marca dos teus passos

esta noite a lua terá um halo de concêntricas

florações de gotas do teu sangue e irisada

sombra do meu leito è o teu rosto iminente
 

quando

a lua vier em forma de lança

vai trespassar um pássaro

para lhe ler nas entranhas a direcção

tu partiste e as marcas dos teus passos

consiste nos olhos abertos de um pássaro

esventrado


 

A humildade

o desenfreio em tipo pequeno

antídoto aos dèdalos

assoma

assombra

ensombra

oh que embargo

que aspas

que estacionários caprichos
 

domingo, 28 de agosto de 2022

o calendàrio

ardente dos teus dias

a lista das tuas agonias

como se atreve

como não ousa serenar

serenar - te

no ímpeto fugidio e secreto

o sorriso

a alva gravidade do estilo
 

o poeta

è um guardador

guarda a diferença

guarda da indiferença

no incerto


guarda a certeza da voz
 

quanto ódio

diz

quanto ódio

tens dentro de ti

o deferente tapete de palavras

a rede bélica

os rasgos secundários

Tudo

engendra

articula

atavia


a sala da tua fala


 

se

encontrar a marca dos teus passos

vou crivar - lhe o coração de alfinetes

para que tu partiste seja a razão magica

de tu poderes morrer - te
 

esta

noite vou arrancar um cabelo

e com a tua ausência faço um

pêndulo para interrogar a lua

por tu teres partido e a marca

dos teus passos ser a razão magica

de a lua poder surgir de noite e urtigas

crescerem no meu leito
 

esta noite

vou erguer - me do meu leito

e quando a lua vier tocar - me

o rosto vou uivar como um lobo

vou clamar pelo teu sangue extinto

vou desejar a tua carne viva os teus

membros esparsos a tua língua solta

o teu ventre lua

vou gritar e enterrar as unhas nos teus

olhos atè que o mar se abra e a lua possa 

vir tocar - me o rosto
 

a lua è uma seta

tu partiste

è o silêncio em forma

de lança
 

a noite

è eu procurar a marca dos teus passos

esta noite a lua terá um halo de concêntricas

floração de gotas do teu sangue e a irisada

sombra do meu leito è o teu rosto iminente
 

agora

chega a lua devagar e o mar

è o leito de teres partido

uma infrutescência de eu

procurar a marca dos teus

passos sobre o meu rosto
 

a febre

è uma pira incompreensível

como a aparição da lua e a opacidade

do mar no meu leito a lua vai tocar - me 

o rosto e a tua ausência è um prisma um girassol

em panóplia
 

o mar è ser noite

e vir a lua tocar - me

o rosto quando tu partiste

e no meu peito crescem

folhas sangue
 

marca

o fim de um eclipse horário

de uma partida iminente

e o tempo apaga a marca

dos teus passos sobre o meu

nome constante è o mar è isso

a lua vir tocar - me o rosto

e encontrar urtigas crescendo

sobre o teu nome o mar è tu

morreste
 

quando

a lua vier tocar - me o rosto

da tua sombra extinta marca

o fim de um eclipse horário

de uma partida iminente

e o tempo apaga  a marca

dos teus passos sobre o meu nome
 

no coração

do tempo um pulsar

um mecanismo ìnscio

e na casa do tempo

a hora è adorno
 

esta noite

morrerás quando a lua vier

tocar - me o rosto terás partido

do meu leito e uma gota de sangue

ressequida è a marca dos teus passos
 

esta noite morreràs

quando a lua tocar - me

o rosto terás partido 

do meu leito

e aquele que procurar

a marca dos teus passos


encontra urtigas crescendo

sobre o teu nome
 

saber

è saber - te

saber - mo - nos unir - mo - nos

è conhecer - mo - nos sabermos ser

por fim sermos è saber - mo - nos 

conhecermos a surda àspide
 

a felicidade è um túnel


 o domínio

o erotismo do domínio

do domínio irrisório

mas enorme

submeter

ver tremer

ver tremor do outro

vencer

o gelo

o desdém


veloz

a felicidade è um túnel

era de noite

quando eu batia à tua porta

e tu vieste abrir

e viste - me como um náufrago

sussurrando qualquer coisa

que ninguém compreendeu

mas era de noite e por isso

tu soubeste que era eu e vieste

abrir - te na escuridão da tua casa

ah era de noite e de sùbito tudo era

apenas lábios intumescências cobrindo


o corpo de fluentes volteios de palpitações trémulas

adejando pelo rosto

beijava os teus olhos  por dentro

beijava os teus olhos pensados

beijava pensando e estendia a mão sobre o meu pensamento

corria para ti

minha praia jamais alcançada

impossibilidade desejada de apenas poder pensar - te

são mil e umas as noites em que não bato à tua porta

e vens abrir - me

 

Princìpe

 

era de noite quando eu bati a tua porta

e na escuridão da tua casa tu vieste abrir

e não me conheceste

era de noite

são mil e umas as noites que bato à tua

porta e tu vens abrir e não me reconheces

porque eu jamais bato a tua porta

contudo

quando e batia a tua porta

e tu vieste abrir


os teus olhos de repente viram - me

pela primeira vez como sempre de cada vez


è a primeira a derradeira instância do momento

de eu surgir e tu veres - me

esta gente essa gente

o que è preciso è gente

gente que tenha dente

que mostre o dente

gente que não seja decente

nem docente

nem docemente

nem delicodocemente

gente com mente sã

que sinta e não mente

que sinta o dente são e a mente


gente que enterre o dente

que fira de unha e dente


e mostre o dente potente

ao prepotente


o que è preciso è gente que atire fora

com essa gente


essa gente dominada por essa gente

não sente como a gente


não quer ser dominada por gente


Nenhuma

a gente è dominada por essa gente

quando não sabe que è gente
 

o maquinal

eta - erótico

è tu - eu

o maquinal tu - eu

cuja tarefa árdua não

 è definir a verdade deslocada

deslocação de grande tonelagem

laboriosa alfaiaria de eros constante


moribunda e esse opróbrio

dispersivo e vexàvel


indiferente da esponja

a história agrega a dificuldade essencial


das variáveis e o ensejo das coisas prática

difícil esta para o maquinal como uma industria


apòcrifa 
 

digo e garanto

o maquinal absolutamente

absorve suas águas variáveis

e isso è o seu amplexo
 

o maquinal

esta erótico esta em astrogação

curso hipnótico dos polímeros

digo com precisão fenomelògica

o maquinal circula na sua hiperesfera

da maneira mais excêntrica
 

a psicologia

do maquinal sabe que basta

que se crie um pólo positivo

para que o pólo negativo surja

ou vice - versa e as evoluções

telecènicas pela força das catástrofes

desenvolvem suas faculdades latentes

ou absorvem - nas como a esponja absorve

as águas variáveis dos humores que transforma

em polaridade
 

sábado, 27 de agosto de 2022

uma calculadora

de improbabilidades o poeta 

è um calculador de improbabilidades

limita a informação quantitativa 

fornecendo informação estética

è uma maquina eta - erótica

em discrepâncias são fulgurância


da maquina a crueldade elegante

da maquina resulta da competição


pirotècnica da circulação íntima

e fulgurante do seu mecanismo eròtico
 

invenção

da resposta outrora em riste

o passo místico espantoso

condensava da sanidade

o insurrecto pudor o gelo

do rubor a pressa cerrada

 agora em triste vacuidade

o desafio que expande cede

degola o desgarrado nexo

do rasgo
 

Um homem

que està no meio da porta

entreaberta apenas não fechada

ainda ou já està a entrar ou a sair

dela já lividamente ou putrefacto

já um homem està na entreaberta

porta a entrada apenas a porta não

fechada ainda ou jà
 

soneto do amor maior

maior amor nem mais estranho

 que o meu existe não sossega 

a coisa amada e quando a sente

alegre fica triste se a vê descontente

dà risada e que sò fica em paz se lhe

resiste o amado coração e que se agrada

mais da vida eterna aventura em que persiste

que de uma vida mal aventurada

louco amor meu quando toca fere e quando

fere vibra mas prefere ferir a fenecer e vive


a esmo fiel a sua lei de cada instante

de desassombrado doido delirante


numa paixão de tudo e de si mesmo
 

ver

o amor na primavera

a afundar - se pétala por pétala

atè a raiz rasgar - me a pele atè

ao miocárdio e gravar uma singela

derrota mais uma a querer contornar

 essa simulação de existência
 

Ternura

eu peço - te perdão por  amar - te

de repente embora o meu amor

seja uma canção nos teus ouvidos

das horas que passei à sombra

dos teus gestos bebendo da tua boca

o perfume dos sorrisos das noites que vivi

acalentado pela graça indizível dos teus gestos

eternamente fugindo trago a doçura dos que

aceitam a melancolia


 

nome do teu martírio

que nunca cessa

meu Deus eu quero

depressa a minha amada

mulher que passa !

que fica e passa

que pacifica que è tanto

pura como devassa bóia leve

cortiça e tem raìzes como

 a fumaça
 

Meu Deus

eu quero a mulher que passa !

eu quero - a agora sem mais

demora a minha amada mulher

que passa !
 

Porque não voltas

mulher que passas ?

porque enches a minha vida ?

porque não voltas mulher querida

sempre perdida nunca encontrada ?

porque não voltas a minha vida

para o que sofro não ser desgraça ?
 

sabem - me o rosto

sabem - me os pés sabem - me a roupa viram - me nu viram - me inteiro no corpo imóvel mas sò me sabem mas sò me vêem mas sò me enterram inex...