domingo, 2 de outubro de 2022

O cântico Negro ( de José Régio )

Vem por aqui dizem - me alguns

com olhos doces estendendo - me

os braços e seguros que os ouvisse

eu olho com olhos lassos  há nos meus

olhos ironias e cansaços e cruzo os braços

a minha glória è esta criar desumanidade

não acompanhar ninguém que eu vivo

sem o mesmo sem vontade que rasguei

o ventre a minha mãe

não  não vou por ai


sò vou onde me levam os meus próprios passos

se ao que busco nenhum de vòs responde


porque me repetis vem por aqui ?

prefiro escorregar nos becos lamacentos


redemonhar ao vento como farrapos arrastar 

os pès sangrentos a ir por ai


se eu vim ao mundo foi sò para desflorar

florestas virgens e desenhar os meus próprios


passos na areia inexplorável o mais que eu faço

não vale nada


ides tendes estradas

tendes jardins

tendes canteiros

tendes pátrias

tentes tectos

e tendes regras

tratados filósofos

e sábios


eu tenho a minha loucura

como um facho a arder na noite escura

e sinto espuma e cântico nos lábios


Deus e o Diabo è que me guiam

mais ninguém


todos tiveram pai

todos tiveram mãe


eu que nunca principio nem acabo

nasci do amor entre Deus e o Diabo


ah ! ... ninguém me dê piedosas intenções

ninguém me peça definições

ninguém me diga vem por aqui


a minha vida è um vendaval que se soltou

è uma onda que se levantou è um átomo

a mais que se animou


não sei por onde vou !

não sei por onde vou !

sei que não vou por ai !


 

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